A múltipla guardiã da cultura

Há fotos dela por toda parte, perfis na internet, nota do Ministério da Cidadania falando de seus planos para o futuro e até agora não se sabe exatamente como ou por que Letícia Dornelles foi parar na presidência da Casa de Ruy Barbosa. Gaúcha, 58 anos, jornalista, romancista, humorista, autora de livro infantil, novelista e apresentadora de TV, vale-se dessas credenciais para nos garantir que será “uma guardiã da cultura no Rio de Janeiro”.

Torcida para isso, tem. Com apenas alguns dias no novo cargo, ela já fez uma mexida na tradicional fundação da rua São Clemente.

Exonerou importantes pesquisadores da casa, gente com experiência, dedicação e amor ao que faz.

Deve ter os seus motivos.

Bons motivos, se não inspirados em ideologia política ou religiosa. As reações por aqui não foram tão sonoras quanto a que veio de universidades americanas, assinada por 150 brasilianistas inconformados com a decisão da nova presidente.

Em carta aberta, eles clamam por imediata volta aos seus postos dos pesquisadores Antônio Herculano Lopes, José Almino de Alencar, Flora Sussekind, Joëlle Rouchou e Charles Pontes Gomes, citados nominalmente por professores das universidades de Columbia, Nova York, Texas, Visconsin, Princeton, Yale e dezenas de outras, não faltando a de Harvard, aquela que o nosso governador não cursou. Não me sinto no direito de opinar sobre a decisão de Letícia Dornelles, tão mal informado sou sobre seus passos pelos caminhos da cultura.

Sei que aprendeu a ler aos três anos e que entrou para a faculdade de jornalismo aos 15, mas não me lembro dela como apresentadora do Fantástico ou do Esporte Total, este na Bandeirantes.

Também desconheço que tipo de colaboração deu a Manuel Carlos em “Por amor” e a Euclydes Marinho em “Andando nas nuvens”. Sei que andou escrevendo novelas para a Record e o SBT, mas, como não assisti a nenhuma, me calo.

Não tenho ideia dos motivos que levaram o bispo Honorilton Gonçalves a convocá-la para salvar a novela “Metamorfoses” da embrulhada em que a meteram os 12 autores contratados até ali pela Record.

Se a novela foi salva, não imagino. Não li seu romance “Como enlouquecer em dez lições”, muito menos o livro infantil que escreveu para contar peripécias do filho de seis anos.

Mas, segundo a editora, trata-se de “uma história cheia de valores familiares, aventuras e emoção”. Letícia Dornelles também é humorista.

Redigiu e apresentou programas, alguns em parceria com o comediante Tom Cavalcante, outra vez na Record.

Está tudo lá, no perfil dela traçado na internet.

Como estou passando recibo, não tenho mesmo o direito de julgar a nova presidente da Casa de Ruy Barbosa.

Mas, pelo pouco que sei dela e pelo muito que conheço dos exonerados, posso ao menos duvidar de que venha ser, como promete, uma guardiã de nossa cultura.

Categoria:Pop & Arte